Essa Pouca Paz Qu'eu Tenho

 
“Airfix, human rights series, peace activists” —  Malte Sonnenfeld  — cerca de 2019

“Airfix, human rights series, peace activists” — Malte Sonnenfeld — cerca de 2019

Não. O inferno não são os outros. São os anos! O transcorrer dos anos, sendo mais preciso. As pessoas não são boas nem más, apenas são. Há bondade ou maldade em seus pensamentos e acções? Não importa, pois, a decisão de estarmos ou não junto d’elas sempre é resultado da vontade pessoal. Não são poucos que, embora permaneçam próximos d’este ou d’aquele, não estão com sua interioridade vinculada aos mesmos. O ser humano é sempre mais complexo em sua existência do que as regras e contratos que o permitiram, em tese, sua vida em sociedade. Quem nos fere somente o faz porque está próximo o bastante para isso, o que, em última análise, foi decisão própria. Isto significa que, n’uma situação de conflito, a vitima é culpada? Não. Significa que entre dois beligerantes haverá quem agrida mais forte o outro. Conviver, ao longo de alguns anos, envolve acumular conflitos, decepções, desencantos…

Não há-que se iludir. Ter pessoas próximas ao redor de si é, também, ofender e ser ofendido. A gente consegue ter um pouco de paz quando deixa de se importar com as ofensas alheias e aceita a si mesmo inclusive com esses defeitos que, vez ou outra, atraem a ira dos outros sobre nós. Essa pouca paz que aprendi a ter não é exactamente indiferença. Eu sinto muito quando me ofendem. Eu me lamento muito quando decepciono os outros ou os inflamo contra minhas imperfeições. Sim, eu sofro por actitudes e acções que foram motivadas conscientemente por mim. Sou responsável pelo mal que causo, mesmo quando sem intenção de causá-lo. Corro o risco e nem sempre as coisas acontecem como desejei. O Universo, com suas infinitas probabilidades, sempre haverá-de me surpreender, sobretudo quando me dou conta de que tenho controle sobre muito pouco do que acontece à minha volta. Tenho desejos, vícios, cansaços, tédios e muita preguiça. Uma hora a coisa desanda e o lombo arde!

Sem embargo, aceitar-se não é o mesmo de desistir de melhorar. Eu tenho de admitir que certas tragédias me fizeram mudar e, talvez, melhorar como pessoa. Mas até essa pedagogia da cacete e do ralho parece perder seu apelo à medida que os anos passam… A gente se entrega a um estado de nulidade que nem se importa mais em tomar as porradas da vida ao mesmo tempo em que as desfere por puro hábito em quem se encontra perto… Ninguém é inocente. Todo mundo bate e apanha. Vítima é aquele que apanhou mais e culpado aquele que não conseguiu parar de bater. Somos ainda bem animalescos n’esse ponto.

Eu luto todos os dias para não lutar. A palavra para isso é pacifismo, dizem. Desejo-me, portanto, um pacifista; um antibelicista por princípio, um recluso que se afasta quando apanha inclusive para evitar o revide. Não me quero pacifista para me sentir superior ao que quer que seja, apenas cansei de participar d’esse circo de horrores que é o mundo que nos cerca. Não quero ser mais forte e escudado para que nada me faça sangrar: Dá muito trabalho! A mera hipótese de desejar ser poderoso para não sofrer tanto me cansa… Estes que estão alto demais para serem alcançados pelas misérias do dia a dia e podem consertar seus resvalos de convivência pelo dinheiro ou pela intimidação não me interessam. Eu penso qu’eles devam ter lá as próprias misérias, ainda que não sangrem amiúde como a maioria. A riqueza não torna as pessoas melhores, tampouco incapazes dos conflitos inerentes à convivência. A riqueza traz consigo o privilégio de não ter-de se preocupar com as consequências das próprias acções. Eu, que não sou rico, invejo tal privilégio e o emulo por meio da misantropia pacifista.

Não é que não goste das pessoas, entenda-se. Considero a convivência algo muito rico e salutar, até certo ponto. A solidão tem limitações psíquicas, inclusive. A paz qu’eu aspiro é de outra natureza. Tem a ver com não se desesperar quando algo muito ruim acontece. Entristeço-me, como humanamente se reage ao que é nocivo, mas não faço d’isso condição para estar bem ou mal. É preciso entender que, em face da ausência de controle sobre quase tudo na vida, as circunstâncias, sim, são indiferentes às pessoas. Mais cedo ou mais tarde o céu desaba sobre a cabeça e o inferno se torna quotidiano. Mas esse inferno, onde os outros têm lugar, não é resultado da convivência entre humanos, sim da condição humana. Ser humano é ter diante de si sempre a perspectiva da morte ao mesmo tempo em que se habita um corpo pleno de involuntariedades. Assim como não temos muito controle se adoecemos ou não, como pretendemos ter se agradamos ou não? Evidente que conviver é decepcionar. O quanto nos decepcionamos antes de romper relações parece ser a grande questão da vida…

O inferno são os anos! Os outros, no início, são o paraíso. São os anos que transformam anjos em demônios, não a Queda. A decadência moral é lenta, não súbita. Qualquer relacionamento humano sofre com o desgaste dos anos. A pele cicatriza e endurece. O coração, também. Envelhecer é perder a sensibilidade ao que nos faz mal; é aprender a levar porrada, sangrar e não desabar. Ou, se desabar, juntar os pedaços e se afastar d’aquilo que nos agride. Bobagem dizer que o sofrimento é quem mais e melhor ensina. Se assim fosse, os mais sofredores seriam os mais sábios. Acumular traumas nos torna receosos, covardes, controláveis… Não, o sofrimento embrutece. Isto posto, violência é uma linguagem que só deveria ser utilizada quando todas as demais formas de linguagem não permitiram a correta comunicação para o fim de conflitos. O que se vê, no entanto, é a violência ser utilizada com mais frequência e necessidade do que deveria. A solução final dos conflitos mediante a força é a paz de cemitério e o opróbrio dos vencidos… E esta paz não é paz de facto; é trégua entre conflitos. O vencido de ontem é o revoltoso de hoje e o revanchista de amanhã. 
A guerra, para os que têm a sagrada sede de justiça, nunca termina. Trata-se d’uma necessidade de guerreiros que, no afã de buscar justificar seu parasitismo milenar, alimentam ódios e vinganças a mascarar projetos imperialistas.

Pacifistas deixam para lá, não porque sejam altruístas, mas porque não faz sentido lutar senão para sobreviver. E essa pouca paz qu’eu tenho diz respeito à compreensão de que envelheço. Depois de anos, as cenas podem até ser semelhantes, mas os olhos são outros. Não há mal maior que idealizar os outros. Eles nunca foram tudo aquilo que pensávamos. Eu mesmo nunca fui tudo aquilo que pensava. Entre a idealidade e a realidade, passaram-se vinte e poucos anos!

Fique eu em paz…

Betim — 30 10 2019

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