AS QUATRO ESTAÇÕES - concerto para quarteto de cordas

 
Joseph Haydn tocando quartetos (autor anônimo; Staatsmuseum, Viena)

Joseph Haydn tocando quartetos (autor anônimo; Staatsmuseum, Viena)

PRIMAVERA - alegro

É primavera! Enfim sibipirunas
D'amarelo a cobrir todo o cimento...
O cinza dá lugar por um momento
À festa de andorinhas e graúnas.

Mil paixões, mesmo as mais inoportunas,
Vêm colorir o olhar de sentimento
Como se uma película de alento
Preenchesse nas retinas as lacunas!...

O tempo todo fico boquiaberto
A ver pelo arvoredo ora desperto
O sol dourar as copas nos outeiros.

Qualquer arbusto vão já s'embeleza
E em cada canto vê-se uma surpresa
Entre floradas, pássaros e cheiros...

* * *

VERÃO - vivace

O sol de meu grotão mais se aproxima
Por madurar as mangas do quintal.
No estio abria as nuvens afinal,
Radiando glorioso lá de cima!...

Mas chega o bem-te-vi com sua rima
E me olha de soslaio no juncal...
Dos baixios batuca o pica-pau
E algum japim gorjeia pouco acima.

É bom andar na roça após as chuvas
A ver logo brotar as águas claras,
Ou sabiás catando ao chão saúvas.

A fresca traz tucanos mais araras,
Que pousam sobre a prata d'embaúvas,
Enquanto o sol se põe entre taquaras...

* * *

OUTONO - adágio

O cheiro das goiabas pelo chão
S'espalha após a enchente derradeira.
Súbito, as folhas secas mais a poeira,
Redemoinham em forte viração...

Cai a tarde p'ros lados do sertão,
Corando terra e céu igual fogueira.
Entrementes, pousadas na figueira,
Maritacas chilreando n'um capão.

Tomado d'essa vã melancolia,
Que a Natura espalha indiferente,
Vou contemplando o fim de mais um dia.

E, inobstante pareça decadente,
O lusco-fusco calmo transluzia
Maturidade plena, finalmente...

* * *

INVERNO - andante

Pelos altos da serra neblinada,
Via-se um mar de morros verdejante,
Enfrento o forte aclive e, mais adiante,
Longo vai-vem de curvas pela estrada.

Nos longes trovejava outra geada
E o vento sibilava sempre uivante.
Eu paro para olhar meio ofegante
Em face da paisagem transtornada.

A tempestade chega, todavia.
Antes qu'eu alcançasse valhacouto,
Perseverava contra o céu revolto.

Logo forte torrente ali descia:
A terra n'um barreiro já s'esgaiva
E as nuvens vêm abaixo na saraiva!

Betim - 09 10 2019

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