Alguma Ordem Sobre o Caos

De sterrennacht — óleo sobre tela —  Vincent van Gogh  — cerca de 1889

De sterrennacht — óleo sobre tela — Vincent van Gogh — cerca de 1889

Há, dentro de todo homem, um desejo de Ordem. A separação mais primária que se pode estabelecer entre o indivíduo que pensa o Universo e o próprio Universo é de distinção entre o EU e o NÃO-EU. É preciso se distanciar, ainda que apenas enquanto raciocínio, para que o ser — que está contido no Universo e dele participa — possa estabelecer os limites onde ele próprio termina e o resto do Universo continua. Esse exercício de diferenciação pode ser eventualmente chamado de ALÉM-MIM. Mais do que estabelecer categorias ontológicas, o presente texto se debruça sobre o DESEJO DE ORDEM, Isto é, a tentativa humana de, consciente ou inconscientemente, ordenar o Universo que tem para além de si, bem como a si mesmo.

É muito difícil para qualquer ser humano aceitar a ideia de caos como modelo adequado para descrever àquilo que o cerca. O Caos — isto é, o mundo desordenado — foi sistematicamente combatido pela racionalidade que projetou, ao longo dos milênios históricos, toda sorte de sistemas ordenadores para tornar o território do caótico cada vez mais diminuto dentro do conhecimento humano. Tal como nas cartas de navegação, onde as regiões descritas como Terra Ignota foram se tornando mais raras a medida que os Descobrimentos aconteciam, o conhecimento se expande sobre mais e mais porções do Universo na ânsia de lhe descobrir as leis ocultas e, deste modo, agregá-las ao Império da Ordem. O mapa do Universo é uma construção mental e, em última análise, uma abstração humana coletiva, não uma realidade.

Explicar o mundo traz sempre a tentação de substituí-lo pelo modelo “perfeito” que inspirou. O problema é a mente humana “s’esquecer” que o virtual não é real, ou seja, que os modelos sistêmicos que criou para explicar o mundo não são, de facto, o mundo, sim verdades precárias e provisórias. O caos é o mundo sem as explicações formuladas pela mente. O Universo existe, independentemente do olhar humano que abstrai do mundo seus arrazoados, o que tornam as respostas dadas pela Filosofia, Religião e Ciência para as questões ontológicas sejam, sobretudo, manifestação d’esse DESEJO DE ORDEM dos homens. O Universo existiu antes dos homens e não precisa do olhar d’eles para continuar existindo. O Universo existirá mesmo se o olhar humano deixar de ser e suas leis permanecerem ocultas. Contido no Universo, todavia, o homem lhe dá uma dimensão outra com seu olhar, a dimensão humana. O mundo não apenas existe, mas é interpretado por esse “ser-no-mundo” que é o homem em sua consciência. Percebe-se, a partir do exposto, que o DESEJO DE ORDEM sobre um Universo caótico projeta sobre este uma camada translúcida capaz de reduzi-lo a termos humanos.

Assim, tal como na geometria euclidiana, a montanha é descrita como triângulo e o horizonte entre o céu e o mar como linha reta. A sucessão de montanhas, aparentemente caótica e aleatória no mar de morro do Planalto Brasileiro é primeiro cartografada e depois explicada por teorias geológicas manifestas nas ocorrências de minérios e formações típicas. O caos que o mundo diante dos olhos apresentava a princípio dá lugar a tentativas sucessivas de explicações que ordenem o que se vê e lhe dê sentido. Repare-se que dotar as coisas de sentido permite que se tornem ideais comunicáveis, logo, ordenar o caos é antes uma questão de linguagem — nomeando e pondo em narrativa — que de acção antrópica a modificar a realidade posta.

O DESEJO DE ORDEM não é necessariamente transformador da Natura (entendida aqui como porção não-humana do Universo), mas antes teorizador. O Universo explicado por teorias (filosóficas, religiosas e científicas) torna-se ordenado uma vez que previsível, pois, apenas se controla aquilo de que se conhece o funcionamento. O grande trabalho humano através dos milênios pode ser resumido a uma constante tentativa de explicar o mundo com vias a controlá-lo. Isso abre uma questão epistemológica espinhosa: Se o conhecimento é fruto d’um desejo (de explicar o mundo para controlá-lo), uma vez frustrada a ideia de ordem enquanto fenômeno percebido no Universo, ainda seria possível o conhecimento do Universo sem ordem? N’outras palavras, é possível aceitar o Universo como caótico? A resposta d’esta pergunta soa desafiadora para os filósofos; terrível para os religiosos; e, sobretudo, desnorteante para cientistas.

Se a pouca ordem que se percebe no Universo for antes projeção d’um desejo humano que uma realidade insofismável, a Ciência deveria enxergar nas leis físicas e no aparato matemático que as subsidiam antes exceções que regras gerais. As condições ideais de temperatura e pressão para rodar os modelos científicos não existem fora dos laboratórios. São, em termos simplórios, aproximações controladas.

Reste ao Universo apenas o caos onde o homem garimpa ordenamentos por aproximação.

Betim — 05 10 2019

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