A tradução de ‘Sorge’ em Ser e Tempo de Heidegger.

É em Sorge que o Dasein pode vir a ser o seu poder-ser em sua liberdade para as possibilidades próprias, é em Sorge que o Dasein enquanto ser-no-mundo pode projetar-se e, assim, criar seus projetos-de-ser que significarão sua existência no mundo de forma singular. Esse projetar, essa liberdade, esse poder-ser próprio só é realizado pelo Sorge próprio do Dasein. Mas o que é SorgeSorge é muitas vezes traduzido como preocupação, cura ou cuidado.

Cura porque vem da fábula expressa por Heidegger para caracterizar o Dasein enquanto Sorge: “Cura enim quia prima finxit, teneat quamdiu vixerit— Sorge foi quem primeiro o formou, que ela então o possua enquanto ele viver.”. Heidegger quer mostrar que Sorge está na essência do Dasein e só por Sorge é que Dasein pode projetar-se, ser livre, desejar, querer, buscar, viver, seja de modo impróprio ou modo próprio.

Alguns autores traduzem Sorge como “cuidado” e pode ser que venha de care em inglês, pois, ao traduzir Sorge para o inglês temos os seguintes termos possíveis: concern, care, worry.

Já para o português, na versão Ser e Tempo (2005) da tradutora Schuback, está como Cura sempre que Heidegger usa Sorge; inclusive o filósofo traduz cura (termo latim) como Sorge (termo alemão). Na versão de Ser e Tempo de Fausto Castilho (2012), a tradução de Sorge se dá para Preocupação.

O ponto principal é: qual estaria mais preciso naquilo que Heidegger quer dizer com Sorge? Pensemos. Heidegger diz: “A determinação pré-ontológica da essência do homem expressa na fábula desde o início fixou assim o olhar no modo-de-ser que domina sua passagem temporal no mundo”. Em outra passagem, afirma: “perfectio do homem [..] é uma ‘realização’ de Sorge”.

Isso significa que Sorge é o caráter mais próprio do Dasein que nós somos sempre e cada vez mais, sem Sorge não poderíamos nos compreender como seres de projeto e de realização; não poderíamos desejar ou querer. Talvez o que nos faça ser como somos é essencialmente ser-Sorge e, sendo Sorge, ainda que de modo impróprio, estamos sempre voltados a nós mesmos buscando nossa realização no mundo.

Cuidadocura ou preocupação poderiam trazer esta explicação complexa em si? Me parece que não. Embora “cuidar de si” é, de certa forma, o que o Dasein faz em Sorge, mas nem sempre. Caindo o Dasein no mero-desejar (que está fundado em Sorge), não há um cuidar-de-si como comumente entendemos o cuidar, mas sim um enganar-se-a-si. Heidegger (2012, p. 545) afirma: “No mero desejar o Dasein projeta seu ser em possibilidades que não só não entram na ocupação, mas cuja efetivação não é sequer pensada e guardada. Ao contrário: o predomínio do ser-adiantado-em-relação-a-si no modus do mero desejar traz consigo um não-entendimento das possibilidades factuais”.

Isso significa que Sorge não é um conceito que traz em si a “beleza do cuidado consigo-mesmo”, mas sim traz consigo a significação de uma condição ontológica de um ser que, de certa forma, se compreende e de vários modos se projeta no mundo (inclusive de modos que o fazem mal e, mesmo fazendo mal a ele, estão fundadas em Sorge, pois, Sorge é o que permite que o Dasein se projete). Acredito que o fundamental seria um conceito próprio e novo para guardar a significação de Sorge em toda a sua complexidade tal como Heidegger propõe. O que não dá é ter de entrar em contato com inúmeros textos com inúmeras traduções diferentes, pois, isso descredibiliza a própria obra do filósofo.

Sorge é mais do que cura, preocupação e cuidado, é ontologicamente mais do que isso; Sorge é a constituição, o fundamento, aquilo que nos faz ser-no-mundo; é o princípio do querer, do desejar, do idealizar, do esperar.

Porque o ser-no-mundo é essencialmente Sorge é que nas análises precedentes se pôde apreender o ser junto ao ente utilizável como ocupação e o ser do Dasein-com com os outros do-interior-do-mundo que vêm-de-encontro, como preocupação-com-o-outro […] Sorge não caracteriza, por exemplo, só a existenciaridade, separada da factualidade e do decair, mas abrange a unidade dessas determinações-do-ser. (HEIDEGGER, 2012. p. 539).

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