Meditando Sob A Cruz Do Meu Eu

 
La Madalena Penitente - circa 1700 - Giovanni Gioseffo dal Sole

La Madalena Penitente - circa 1700 - Giovanni Gioseffo dal Sole

Na divina comedia íntima
eu que corro pela aventura divina
de me sentir um louco equilibrista
advogo a necessidade mais ímpar
de lograr uma busca nada cínica
ao que pesa com maior asa líquida
dentro do manifesto Eu aqui
derramado em desmistificadas linhas

Preciso escrever como um eremita
preciso escrever como um recluso
preciso reescrever a minha divida
com o divino preço do oferecido Ser meu
ao encontro do precioso escrever fora
do que não pode ser inscrito entre
o que não pode ficar dentro de mim
no que não pode demorar sobre mim

Escrever como uma meditação buscando
a nação onde eu possa me derramar
esparramado acima dos escombros
de uma construção de nenhum sonho
na sombra de toda tentativa de voar
para cima das circundantes montanhas
que ocupam aqueles espaços vazios
onde as palavras nascem como
explosões de diversos altos sentidos
no preço que também não deixa de ser pago
na dívida da consciência de si
tomada por todo aquele que ao agir
tem como suporte apenas contar a história
que navega muito profundamente por todo
próprio abismo interior repleto de tubarões
e outros predadores da busca da paz interior

E eu mesmo estou nessa guerra em mim
uma guerra em busca de inflexível paz
para o meu tão absurdamente cansado Eu
Eu sob o peso de uma cruz de aço
Eu sob o peso de uma cruz de farpas
Eu sob o peso de uma cruz de misérias
Eu sob o peso de uma cruz de maldições
Eu sob o peso de uma cruz de desgraças
Eu sob o peso de uma cruz inimiga
Eu sob o peso de uma cruz crudelíssima
Eu sob o peso de uma cruz amarguíssima
Eu sob o peço de uma cruz amantíssima
e amicíssima da dor que me carrega para longe
de uma meditação por encontráveis paraísos
e me desperta sempre para carregar-me
em direção aos encontráveis pesadelos
que racham a visão d’alma minha febril
e a escuridão d’alma minha inteira
em partículas subconscientes esmagadas
pelas neuroses psicóticas dos meus devaneios

A cruz tem todo peso no meu martirizado Eu
dos históricos santos tão martirizados
quanto este que medita agônico crucificado
nestas linhas inquebráveis de um
permanente doentio estado de transe acrobático
um transe provocado pelas vezes nas quais
tento me retirar sob o peso da cruz
e cada vez que assim penso movê-la
sou golpeado pelo que vem de mais profundo
pelo que vem impiedoso do fundo dos meus
inomináveis draconianos subterrâneos
uma forma de vida própria me eternizando
no martírio de minha insana alma
quedante alma absurda de surdos absurdos
no meio quebrado do espelho que me reflete
como o mais flagelado dos tortos santos
deste mundo contemporâneo que me é
um todo estranho conjunto de desinteressantes Eus
famintos por alguma coisa que jamais irá
alimentá-lod na implacável verdade do viver

Não tenho uma Madalena para chorar por mim
não tenho uma Madalena para orar por mim
não tenho uma Madalena para chamar por mim
uma Madalena feita de sonhos mais límpidos
uma Madalena feita de campos mais sólidos
uma Madalena feita de vales mais floridos
uma Madalena feita de feitos notórios
uma Madalena para o Degenerado Cristo
ungido pelos vários lutos de indefectíveis ritmos
que aceleram o meu pensar na gasta direção
de uma estrada de espinhos onde perco
metade do meu Eu que estava saudável
e encontro metades dos meus doentes Eus
natimortos e já mortos me culpando
pelo advento sempre do martírio em mim
que me faz refém doravante meu poder
em sempre resoirar vivo através de letras
como estas meditativas expressões aqui
que removem um tanto do peso daquela cruz
mas nunca conseguem destruí-la
porque a cruz é o meu primeiro pensamento
porque a cruz é o meu primeiro momento
porque a cruz é o meu primeiro monumento
porque a cruz é o meu primeiro nascimento
porque a cruz é o meu primeiro merecimento
porque a cruz é o meu primeiro estremecimento

Pensamento no qual as ânsias tremulantes
se fazem as perspectivas mais intensas
do meu Ser em franca combustão
momento no qual as flânulas hasteadas
dos confins dos estados do meu Ser
estão mais sendo erguidas pelo vento interior
monumento morto em ressurreição eterna
das avalanches internas que o meu Ser
põe como toda chave do meu encontrar
nascimento de cada nova chance de tecer
uma vestimenta mais suave para o meu Ser
de definida composição sem algo temer
merecimento próprio de um crucificado como eu
notável arregimentador das catapultas
que erguem os abalados muros do meu Ser
estremecimento causando o terremoto derrubante
do arcaico mensageiro oculto do templo interior
subtraindo toda outra voz do meu Ser
isto sou eu como a cruz aqui em mim
isto sou eu como a cruz que sempre é
isto sou eu como a cruz que sempre será
o amálgama consorte das fissuras rentes
às paredes de minhas memórias dementes
nos dormentes infecundos tornados
dos pergaminhos inabitados do meu Eu
a ler todo o insondável futuro das portas
que não querem se abrir para mim

Medito logo me crucifico
Medito logo me enforco
Medito logo me suicido
Medito logo me nego
Medito logo me subtraio
Medito logo me divido
Medito logo me sacrifico
Medito logo me perco
Medito logo me extinguo
onde está a Madalena
na torre do meu Deus Interior?
onde está a Madalena
na torre da minha Magdala Interior?
onde está a Madalena
a minha Senhora Soberana Interior?
onde está a Madalena
a minha Ponte Salvadora Interior?
onde está a Madalena
o meu Suporte Interior?
onde está a Madalena
o meu Éden Interior?
onde está a Madalena
o meu Verdadeiro Eu?
Madalena
onde está o meu Interior?

Inominável Ser
NESTA
CRUCIFICANTE
MEDITAÇÃO
NO SER
QUE ELE
É

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