Emaranhado Passional

Adentro Estes Algares Cruéis

Alexander Krivitskiy , on  Unsplash

Agora, nesse exato momento, um pouco mais de uma e meia da madrugada, sento-me e penso se foi isto que aconteceu, realmente. Na verdade, é sempre assim. Ele me dá o céu, em troca de eu costurar todas as nuvens que ele mesmo rasga à noite. Não. Nunca é durante o dia. Durante o dia eu trabalho fora e dentro. Ele só fora, e à noite, dentro de mim, só goza. Ainda que eu também, o amor acaba ali, no final do ápice. E volta tudo ao começo, num ato de bate boca vulgar.

As louças choram disfarçadamente com a água a cair. Jamais vou te ver ali. Nem elas vão te sentir. O torço qualquer para que meus fios finos não caiam no nosso pão é apenas para mim. O avental não lhe veste, somente cabe em mim. A panela está quente demais. Ela vai te queimar, mas na minha pele, elas sorriem.

Os tecidos de seda, estico ao chegar, para que se deleite no nosso cheiro; e em troca, me levas para jantar. Você é um bom par. Mas para ganhar teu amor, tenho que me esforçar.

Mas te amo, e você me ama. A década de amor que vivemos já sai da década e vai além desses anos. E foi tudo vulgar, com delicadeza e charme, mas doentio, e, com a barriga, resolvemos empurrar. Ela já inchou diversas vezes mas, uma tal de uma pílula, nem a este nível, permitia chegar. E quem decidia era nós, porque a tua opinião sem a minha, não era nada feito não. Nossos futuros filhos não irão, de fato, chegar. Mas nada disso não vem ao caso agora. Sei que está dormindo a essa hora. Prefiro acordar e esta linda desgraça relatar.

Você não me conhece e tenta me descobrir. Assim me faz mal e após a década de amor vulgar, ainda somos completos estranhos.

Então, vamos combinar. Cada um dá uma parte e perde um pouco de si. Se for pra viver nesta desgraça de amor, que seja mesmo assim. Duas metades mortas, que se encontram para sobreviver, ao amor que já morreu, mas insistimos em tudo reverter. Porque o amor não nos deixa afastar. É de ordem passional! Você até pode ter escolha mas, eu não tenho. Devo seguir as duas opções, representando dois, você e eu: Amar morrendo e morrer de amar. Enquanto eu choro e você apenas dorme, depois de nos fazer gozar.

Então termino.

Sabe de uma? Coloquei-nos n’uma balança imaginária. E não há nada mais a se fazer. Tirei as sandálias e roupas minhas, e acabou ficando mesmo tudo igual.

A exagerada sou eu. Que é isso, meu amor? Já fizemos as pazes. Não foi nada de mais.

Quando acordares, tudo vai recomeçar. Enquanto isso, deixa eu no teu peito, mais uma vez, me afogar e em tua doce lábia, acreditar.

Nos amamos! Que desgraça…

Alguém morreu. Mas foi de amor.

Viva, meu bem. Você ficou!

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