Martírio Das Mais Sacras Horas

 
Joan Of Arc - 1865 - John Everrtt Millais

Joan Of Arc - 1865 - John Everrtt Millais

É um desafio
que no obscuro delírio
lanço aos véus
do meu Inconsciente
em uma ovação
de prima oração
nas raízes do meu coração

Sou velho conhecido
das marcas da cidade
que foi abalada tarde
pelos gritos dos abutres
que comeram meu humor
e sabotaram pensamentos
que aqui haviam selado
todo denso torpor

Solicitei como um velho
próximo do caixão de todo
meu contínuo refletir
uma chance a algum Deus
que pudesse ouvir tudo
que aqui dentro me possui
entre os planos ruins
e os planetas piores ainda
do meu interior universo

Peguei emprestados os joelhos
de Joana D’arc em êxtase
e me pus a conceder-me
horas de grande estanque
das sutilezas viris do meu
Ser invigilante sobre
todas as maneiras de buscar
os cacos do quebrado
interno espelho

Sangrei os meus joelhos
tal como Joana deve ter
sangrado quando clamava
pelo Deus que nela ecoava
senti a mesma dor que ela
dentro do fervor de encontrar
meu Verdadeiro Deus
sem palavras rebuscadas
sem hinos monótonos
sem livros hipócritas
sem caminhos gnósticos
sem igrejas inóspitas

Sangrei bastante naquelas
horas em que me fiz
uma Joana revestida
por uma armadura
de imenso desespero
com um escudo empunhado
de horrendos medos
com uma espada desembainhada
de puras angústias
buscando um conforto
que toda minha alma múltipla
não conseguia envolver
em completude única

Sangrei latente
como Joana
sangrei doente
como Joana
sangrei doloroso
como Joana
e fui queimado
na fogueira das mentiras
que meu Falso Eu
arrumou para a visão
dos meus errôneos olhos
diante da exaustão
do meu Ser irrisório

Queimado pelos inimigos
dentro de mim mesmo
espalho ainda minhas cinzas
pelos versos
mais sacros
pelos verbos
mais sacros
pelas lamúrias
mais sacras
pelas exclamações
mais sacras
pelas reclamações
mais sacras
do meu martirizado
interior sol
de uma constelação
de brilhantes martírios

Nem como Joana
encontro O Verdadeiro
nem como João
encontro O Verdadeiro
nem sem um Nome
encontro O Verdadeiro
Apenas Martírio
tenho encontrado
nas mais sacras horas
onde meu Verdadeiro Ser
se ajoelha diante
de cruzes incineradas
orando para
O Nada

Inominável Ser
UM INOMINÁVEL
MARTIRIZADO
SANTO
DO NADA

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Nota Do Autor: Joana é o derivativo masculino de João e ambos os nomes significam “Deus é cheio de graça”, “agraciada por Deus” ou “a graça e misericórdia de Deus” e “Deus perdoa”. Joana advém do latim latim Iohanna e João provém do hebraico Yehokhanan, nome que resultou da união dos termos de Yah, “Javé, Jeová, Deus”, e hannah, “graça”. No contexto deste poema, o Eu Lírico lança a si mesmo o desafio de buscar ao Deus Oculto no coração (uma variação minha do Conceito Rosacruz sobre o Deus do coração de todo Ser Humano), não o que o Catolicismo e o Protestantismo pregam como sendo O Absoluto. Trata-se de um tipo de Misticismo ligado mais à experiência íntima deste que vos fala do que a uma Escola Religiosa. E a Graça desse Deus não encontrado internamente acaba por se tornar o contrário no cenário descrito nos versos.

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