Doce Mazela d'um Anjo em Estado de Putrefação

 
Morguefile

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Abrir-se-á cancelas

anunciando medonhas mazelas que hão de se iniciar

Nasce sangue vindouro da pele

Em carne rubra

pele o brota em sal…

As hemácias vêm revelar

Entretanto, é doce tal

N’um vívido torpor da dor

Que me enfeita de sebosos líquidos que em mim jazem

Bacanaço é onde estou

Bagaço é como estou

Submissa orfeônica é o que sou

Definho-me pela circunstância de assim desejar

E choro em dor pela razão de que tal não desejaria

Confusión

A mazela mais feliz dentro da cancela infeliz

Animal eu nasci

Animal me tornei

E por animal outrem,

um doce e vegetativo monstro sempre serei

Sobretudo, o monstro que resultou

Das pancadas, mazelas e deformações não tão bem-vindas

De tão medonha cancela

Mãos nobres e esguias se apodreceram aos clamores

O ser pobre e medonho

E aqui findarei os doces e amargos dias

E noites frias, vazias

O criador morreu

Levou com ele a chave

Da cancela que hoje me prende, sufoca e arde

Pelo meu atual tamanho cavalar

E queda-se aqui a criatura esdrúxula

Que delicada e violentamente surgiu

Hoje, sou bicho, precisas ver

Nada falo, porém, por dó(de quem diabos?), ainda sei escrever

Por este motivo, deste putrefato caso podes saber

Por dentro sou a pluma quase translúcida

Por fora, vai saber?!

Descubro que ainda consigo ouvir

Quando passam pela exposição que me tornei

“Coitada, foi Deus quem quis assim…”

E n’um ranger de dentes

Entre ferro ou outros líquidos escuros, grito,

quase sem sair da boca afora

Com inevitável e desgraçada dor

Também com um intrometido prazer:

deus, quem mandou você nascer…?

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